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Quem é o ex-piloto da Voepass que virou peça-chave na investigação da queda do voo 2283

Quem é o ex-piloto da Voepass que virou peça-chave na investigação da queda do voo 2283 Duas tragédias, separadas por mais de duas décadas, marcaram a tra...

Quem é o ex-piloto da Voepass que virou peça-chave na investigação da queda do voo 2283
Quem é o ex-piloto da Voepass que virou peça-chave na investigação da queda do voo 2283 (Foto: Reprodução)

Quem é o ex-piloto da Voepass que virou peça-chave na investigação da queda do voo 2283 Duas tragédias, separadas por mais de duas décadas, marcaram a trajetória de Luiz Cláudio de Almeida. Em 2003, ele perdeu o irmão na explosão do VLS, em Alcântara. Em 2024, a queda do voo 2283 colocou sob investigação problemas de segurança que o ex-piloto da Voepass disse ter alertado durante anos. O depoimento dele ganhou destaque no relatório final da Polícia Federal (PF). Entre os comandantes ouvidos, a PF ressaltou a oitiva de Almeida e retomou declarações dele ao analisar as condutas de Raphael Limongi de Figueiredo e Rafael Gimenez Rodrigues, dois dos 16 indiciados pela queda que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP). Humberto Alencar, copiloto do voo 2283 (à esq.), e Luiz Cláudio de Almeida (à dir.) Arquivo pessoal Quatro décadas de aviação Almeida contou que começou a voar aos 16 anos e se formou piloto aos 18. Em 44 anos de carreira, passou por companhias como TAM, Trip e Azul. A experiência com aeronaves ATR o levou, em 2019, à então Passaredo, que depois passou a usar a marca Voepass. Segundo ele, o convite inicial era para trabalhar como comandante e instrutor. Almeida e outros pilotos experientes no modelo fizeram um mês de treinamento, mas, no fim, foram informados de que atuariam como copilotos. O relatório da PF registrou que, segundo Almeida, colegas atribuíram a mudança ao receio da chefia de que o rigor técnico do grupo fizesse com que eles “parassem aviões”, afetando a programação da companhia. Almeida permaneceu na Voepass até o encerramento das operações, em 2025. Segundo ele, ficou na empresa porque aguardava a aposentadoria especial como aeronauta. Hoje, está aposentado por tempo de contribuição e ainda tenta obter o reconhecimento da aposentadoria especial. Luiz Cláudio de Almeida e a comissária de voo Deborah Soper Ávila, que morreu no voo 2283 Arquivo pessoal Alertas e retaliação Durante os anos na Voepass, Almeida afirmou ter enviado cerca de 40 e-mails ao setor de segurança operacional da empresa, conhecido como Safety. Segundo ele, parte dos alertas tratava de problemas nos boots, componentes do sistema de degelo das aeronaves ATR. “Eu fiz um relato dois meses antes da queda do avião e fui até uma audiência pública da Anac, em Brasília. Também reportei vários fatos. Passei mais ou menos 40 e-mails no Safety, de segurança da empresa, e nunca obtive resposta”, disse. Cerca de dois meses antes do acidente, Almeida também participou de uma audiência pública da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), em Brasília, ao lado do Sindicato Nacional dos Aeronautas. Na ocasião, fez uma denúncia sobre as escalas de trabalho. Na ocasião, o ex-piloto relatou cansaço, viagens de até duas horas e meia até o local de trabalho e ligações da empresa durante a folga. Em setembro de 2025, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) concluiu que o tempo reduzido de descanso da tripulação do voo 2283 pode ter sido um dos fatores contribuintes para a tragédia. O comandante afirmou que também sofreu retaliações por causa dos questionamentos. Segundo ele, deixou de fazer trechos mais longos e foi transferido “do dia para a noite” de Brasília (DF) para Porto Alegre (RS). "Muitas das panes não eram passadas porque o avião tinha que cumprir a malha, tinha que fazer a decolagem. Tinha avião com problema de ar-condicionado, pneu careca, problemas que às vezes não davam condição de sair. Mas havia uma norma na empresa de não se reportar as panes", complementou Almeida. Em nota divulgada após a conclusão do inquérito, a Voepass afirmou que a segurança operacional sempre foi prioridade e que adotava os protocolos de segurança, manutenção e capacitação previstos pela Anac. A empresa também disse que colaborou com as investigações. A Anac informou que sua corregedoria analisaria os apontamentos feitos pela PF sobre a fiscalização da Voepass. Leia mais abaixo. Ao longo dos anos, ex-piloto reuniu registros de irregularidades na Voepass Arquivo pessoal A tragédia que veio antes Quando o g1 perguntou por que continuou denunciando situações que considerava inseguras, mesmo diante das supostas retaliações, Almeida voltou a 2003. Na época, era comandante de aviões modelo Fokker 100 na TAM. O irmão, José Eduardo de Almeida, de 38 anos, cinegrafista, trabalhava no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. Em 22 de agosto, o Veículo Lançador de Satélites (VLS-1) explodiu após a ignição prematura de um dos motores. José Eduardo foi uma das 21 vítimas. Almeida estava em São Luís e esperava encontrar o irmão no dia seguinte. Em vez disso, permaneceu no Maranhão acompanhando a identificação dos corpos. “Eu fui para São Luís pensando que ia almoçar no dia seguinte com o meu irmão. Infelizmente, passei uma semana no IML acompanhando a identificação dos corpos. Depois, meu irmão foi enterrado em Campos do Jordão”, relatou. A investigação sobre a tragédia concluiu que houve um “acionamento intempestivo” e apontou, entre os problemas encontrados, “falhas latentes” e degradação das condições de trabalho e segurança. Para Almeida, a perda do irmão passou a orientar a forma como encarava riscos na própria profissão. “Eu sempre lutei por saber a verdade do que aconteceu em Alcântara. E essa foi a minha motivação. Pelo que eu passei, pelo que eu passo até hoje, eu quis saber da verdade também na Passaredo. Estou com a minha consciência tranquila da quantidade de reportes que eu fiz.” José Eduardo de Almeida, de 38 anos, cinegrafista, morreu na explosão do foguete Veículo Lançador de Satélites (VLS), no dia 22 de agosto de 2003 Arquivo pessoal/Ed Ferreira/Estadão Conteúdo O que diz a Anac Após a conclusão do inquérito, o presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Tiago Faierstein, afirmou ao g1 que a corregedoria do órgão vai analisar os apontamentos feitos pela Polícia Federal sobre a fiscalização da Voepass. A PF não indiciou servidores da agência, mas concluiu que a Anac conhecia irregularidades na companhia e sugeriu ao Ministério Público Federal (MPF) a apuração de eventuais responsabilidades. Faierstein disse que a nova direção da agência está disposta a apurar possíveis falhas. “Se tem alguma coisa que a gente ainda não enxergou, nós estamos aqui de olhos abertos para que realmente a gente possa colaborar com as autoridades competentes”, afirmou. O que diz a Voepass "A VOEPASS informa que a segurança operacional sempre foi sua prioridade. Ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, a companhia adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A empresa reforça que sua atuação sempre esteve pautada pelos mais elevados padrões de segurança da aviação, contando, desde 2012, com a certificação IOSA (IATA Operational Safety Audit), concedida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) às companhias aprovadas em rigorosa auditoria internacional de segurança operacional. Os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos previstos para o enfrentamento de condições de formação de gelo, incluindo medidas como alteração de altitude e velocidade, conforme as orientações do fabricante da aeronave e os protocolos operacionais aplicáveis. As tripulações eram permanentemente orientadas a cumprir rigorosamente esses procedimentos, de acordo com cada cenário operacional. A tripulação do voo 2283 era composta por profissionais experientes, devidamente habilitados e certificados, que somavam mais de 5 mil horas de voo, com treinamentos técnicos, certificações e avaliações médicas regularmente atualizados, sem qualquer registro prévio que comprometesse sua aptidão para o exercício da função. Desde o início das investigações, a VOEPASS colaborou integralmente com as autoridades, disponibilizando documentos, diários de bordo, registros operacionais e relatórios técnicos ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e à Polícia Federal. A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente. A VOEPASS reitera sua solidariedade às famílias das vítimas e reafirma que permanece à disposição das autoridades, das instituições competentes e dos demais agentes envolvidos para prestar todos os esclarecimentos necessários". Motores do avião que caiu e matou 62 pessoas em Vinhedo (SP) são retirados do local do acidente e serão levados para São Paulo Cenipa/FAB VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas