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Geleiras que abastecem cidade no Peru encolhem e ampliam ameaça de lago glacial

Derretimento de geleiras faz lago crescer e aumenta ameaça a cidade nos Andes Llilbert/Wikimedia Commons Aos pés da Cordilheira Branca, nos Andes peruanos, a ...

Geleiras que abastecem cidade no Peru encolhem e ampliam ameaça de lago glacial
Geleiras que abastecem cidade no Peru encolhem e ampliam ameaça de lago glacial (Foto: Reprodução)

Derretimento de geleiras faz lago crescer e aumenta ameaça a cidade nos Andes Llilbert/Wikimedia Commons Aos pés da Cordilheira Branca, nos Andes peruanos, a cidade de Huaraz convive com uma ameaça que vem das montanhas. Formada pelo derretimento de geleiras, a Laguna Palcacocha pode provocar uma grande enxurrada caso suas águas sejam liberadas de forma repentina, em um fenômeno semelhante ao ocorrido recentemente no Nepal. Colapso de uma geleira pode ter desencadeado a avalanche mortal no Nepal, dizem especialistas O fenômeno é conhecido como GLOF (Glacial Lake Outburst Flood), traduzido como inundação por ruptura de lago glacial. Ele ocorre quando a água acumulada em um lago glacial transborda ou é liberada de maneira catastrófica e súbita, atingindo as áreas localizadas abaixo — como é o caso de Huaraz. Segundo relatório de 2023 do Instituto Nacional de Investigación en Glaciares y Ecosistemas de Montaña (INAIGEM), principal órgão do governo do Peru vinculado ao Ministério do Ambiente, a Bacia do Rio Santa, onde estão localizadas Huaraz e a Laguna Palcacocha, é classificada mundialmente como a segunda bacia hidrográfica com maior risco de GLOF do planeta. O volume da lagoa aumentou 34 vezes entre 1972 e 2016, criando um risco latente de deslizamentos que poderiam afetar mais de 27 mil pessoas, além de moradias, atividades econômicas, infraestrutura, serviços básicos e biodiversidade. O risco não é apenas uma possibilidade teórica. Em 1941, a queda de blocos de gelo na Laguna Palcacocha provocou o rompimento da barreira natural que retinha a água e causou uma enxurrada de lama e gelo que destruiu metade da cidade de Huaraz e matou aproximadamente 4 mil pessoas. A enxurrada, chamada no Peru de aluvión, ficou conhecida como o evento mais destrutivo da história do país envolvendo geleiras. Atualmente, o local conta com um Sistema de Alerta Precoce (SAT), que monitora a lagoa em tempo real. Em um cenário de transbordamento violento, a estimativa é de que a enxurrada leve cerca de 20 minutos para chegar a Huaraz. Esse intervalo é considerado no planejamento das rotas de evacuação para áreas seguras. Mais de oito décadas depois do desastre, portanto, a lagoa continua sendo considerada uma área de risco para as populações que vivem à sua volta. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: INSPIRAÇÃO: Médico mapeia a vida selvagem no próprio bairro e mobiliza vizinhos pela conservação BRIGA OU AMOR: Machos de cobra coral são flagrados em 'dança de combate' na Bahia ESCONDIDO SOBA TERRA: Cientistas descobrem novo anfíbio na Mata Atlântica Veja o que é destaque no g1: Agora no g1 Como um lago glacial pode transbordar? Cidade de Huaraz, no Peru Diego Baravelli/Wikimedia Commons Um lago glacial é formado pela água resultante do derretimento de geleiras. Em determinadas condições, essa água pode ficar represada por barreiras naturais formadas por rochas, sedimentos e gelo. Segundo o glaciologista — cientista que investiga as geleiras — Jefferson Cardia Simões, pioneiro no estudo da área no Brasil e diretor do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diferentes fatores podem desencadear a liberação repentina dessa água. "Derretimento de água (por aquecimento atmosférico), terremotos e erupção vulcânica", explica. No caso da Laguna Palcacocha, um dos fatores de preocupação é a presença de 22 blocos de gelo potencialmente instáveis. A queda deles sobre a lagoa pode provocar ondas fortes e contribuir para o transbordamento. A barreira natural que retém a água também é considerada frágil por ser formada por materiais instáveis e pouco resistentes. Além dessa barreira natural, a lagoa conta com um dique artificial — estrutura construída para ajudar a controlar a água — instalado há mais de 50 anos. Segundo o INAIGEM, a falta de manutenção dessa estrutura também está entre os fatores de risco. Por que a Cordilheira Branca é tão vulnerável? Cordillera Blanca Candy Lopez/Wikimedia Commons A Cordilheira Branca concentra uma grande quantidade de gelo nos Andes peruanos e reúne características que favorecem a ocorrência de fenômenos associados ao derretimento e à movimentação da água. O pesquisador explica que a própria configuração do relevo contribui para a vulnerabilidade da região, já que grande parte dessas montanhas é íngreme e os vales dos rios que deságuam no Rio Santa são muito fechados. Essa característica se combina às condições em que o gelo se encontra na região. "Porque o gelo em grande parte está mais perto do ponto de fusão, assim, um pouco de aquecimento já derrete mais neve e gelo", explica. O levantamento do INAIGEM também coloca o Peru como o terceiro país do mundo com maior risco e exposição da população a inundações por transbordamento de lagos glaciares, ou seja, por GLOFs. O país fica atrás apenas de Índia e Paquistão, primeiro e segundo colocados, respectivamente. O cálculo considera a quantidade e o tamanho dos lagos, a população que vive abaixo deles e a vulnerabilidade social dessas áreas. Geleiras peruanas perderam mais da metade da área O risco associado à Palcacocha está ligado a uma transformação que ocorre em escala muito maior no território peruano. O país perdeu 56,2% de sua superfície glacial entre 1962 e 2020. Dos 3.487 glaciares mapeados em 1962, 1.514 desapareceram completamente até 2020, de acordo com o INAIGEM. O Peru concentra 68% dos glaciares tropicais do planeta e é a principal reserva desse tipo de gelo no mundo. Laguna 69, uma lagoa glacial Christian Cruzado/Wikimedia Commons Para o pesquisador, a redução observada nas últimas décadas é "claramente atribuída ao aquecimento atmosférico na região". Ele explica que a mudança ocorre porque a neve que antes se acumulava nas áreas mais baixas já não permanece nesses locais. Com isso, o chamado balanço de massa da geleira — relação entre o que ela ganha com o acúmulo de neve e o que perde principalmente pelo derretimento — fica negativo. Fornecimento de água Além do risco contínuo de inundação glacial, Huaraz enfrenta extrema vulnerabilidade hídrica. Os glaciares fornecem até 67% da água potável da cidade em anos normais e até 91% em períodos de seca, conforme o INAIGEM. A diminuição dessas geleiras, portanto, também representa um problema para o abastecimento da região. O gelo da Cordilheira Branca funciona como uma espécie de reserva natural, liberando água de forma contínua, algo especialmente importante durante os períodos de seca. De acordo com o cientista, essa relação passa por diferentes fases. "No estágio inicial tem superávit de água, mas chega um ponto que começa a ter menos água". Isso acontece porque as geleiras armazenam água na forma de gelo e a liberam gradualmente. "Geleiras são armazenadoras de água, e o mais importante é que elas fornecerem água constantemente, menos no período de seca!", afirma. A mudança, portanto, não significa simplesmente que haverá mais água disponível à medida que as geleiras derretem. O aumento inicial do derretimento pode elevar a oferta de água, mas, à medida que o volume de gelo diminui, a capacidade de armazenamento também cai. Em Huaraz, a transformação da Cordilheira Branca impõe um desafio que envolve tanto o risco de desastres quanto o abastecimento de água da população. *Sob supervisão de Rodrigo Peronti. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente