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Além do desmatamento: doenças também preocupam na conservação dos felinos brasileiros

Registro de uma jaguatirica, em Poconé, no Mato Grosso marcoseugenio / iNaturalist Quando pensamos nas ameaças à fauna brasileira, o desmatamento, as queimad...

Além do desmatamento: doenças também preocupam na conservação dos felinos brasileiros
Além do desmatamento: doenças também preocupam na conservação dos felinos brasileiros (Foto: Reprodução)

Registro de uma jaguatirica, em Poconé, no Mato Grosso marcoseugenio / iNaturalist Quando pensamos nas ameaças à fauna brasileira, o desmatamento, as queimadas e o tráfico de animais costumam ser os primeiros problemas lembrados. Mas pesquisadores chamam atenção para um fator menos conhecido: a circulação de doenças entre gatos domésticos e felinos silvestres. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram Duas revisões científicas publicadas por pesquisadores brasileiros mostram que espécies como jaguatiricas, gatos-do-mato, onças-pintadas e onças-pardas podem compartilhar diversos agentes infecciosos com gatos domésticos, especialmente em áreas onde a expansão urbana avança sobre remanescentes de vegetação nativa. Veja o que está em alta no g1: Agora no g1 Doenças Entre as doenças e agentes de maior preocupação estão a toxoplasmose, causada pelo protozoário Toxoplasma gondii, além dos vírus da imunodeficiência felina (FIV), da leucemia felina (FeLV), da panleucopenia, herpesvírus, calicivírus e outros patógenos já detectados em felinos silvestres. Segundo os pesquisadores, a transmissão nem sempre depende de contato direto entre os animais. No caso da toxoplasmose, por exemplo, os felinos são os únicos hospedeiros definitivos do parasita e eliminam oocistos nas fezes, capazes de contaminar solo, água e alimentos. Um único gato pode eliminar milhões dessas estruturas resistentes no ambiente durante a infecção. Os autores destacam que felinos silvestres também podem eliminar o parasita e manter o ciclo da doença na natureza. No entanto, o aumento da interface entre ambientes urbanos e áreas naturais amplia as oportunidades para que agentes infecciosos circulem entre populações domésticas e silvestres. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: GRANDE FAMÍLIA: Pirarucu com cerca de 400 filhotes viraliza nas redes; especialistas alertam para invasão CIÊNCIA: Alta densidade de onças-pintadas na Amazônia pode esconder queda preocupante no número de fêmeas REGISTRO RARO: Virginia flagra tubarão caçando arraia durante passeio; especialista explica cena rara Onça-pintada foi flagrada descansando sobre uma pedra às margens do Rio Paraguai, em Corumbá Guilherme Pablo Motivos As revisões apontam que a perda e a fragmentação dos habitats, a expansão das cidades, a ocupação de áreas periurbanas e até grandes incêndios favorecem a aproximação entre animais domésticos e a fauna silvestre. Esse cenário aumenta a preocupação com o chamado spillover, quando um agente infeccioso passa de uma população para outra. "Como as cidades estão avançando sobre as matas e o ambiente está cada vez mais fragmentado, o encontro entre o mundo doméstico e o silvestre está acontecendo com mais frequência, facilitando o que chamamos de spillover — que é o salto de um patógeno de uma população para outra", afirma o biólogo Fernando Olaio. Além do risco para os felinos, os pesquisadores lembram que a toxoplasmose também tem importância para a saúde pública. Como os gatos eliminam oocistos capazes de permanecer viáveis por longos períodos, a contaminação ambiental pode atingir outros animais e até seres humanos, reforçando a necessidade de uma abordagem integrada de Saúde Única, que considera a saúde animal, humana e ambiental como partes de um mesmo sistema. As revisões também defendem medidas simples que ajudam a reduzir esse risco. Entre elas estão manter os gatos domiciliados, evitar que tenham acesso livre às ruas, oferecer alimentação adequada, realizar acompanhamento veterinário e dar destino correto às fezes dos animais. Essas práticas diminuem tanto a exposição dos próprios gatos quanto a possibilidade de contaminação do ambiente. "No caso da toxoplasmose, por exemplo, os felinos são os únicos hospedeiros definitivos do parasita. O que isso significa na prática? Um único gato doméstico infectado pode eliminar milhões de oocistos (uma espécie de "ovo" do parasita) nas fezes. Essas estruturas são extremamente resistentes e acabam contaminando o solo, os alimentos e a água. Uma onça pode se infectar apenas por beber água de um córrego contaminado, sem nunca ter visto o gato doméstico que deixou o parasita lá", completa o especialista. Apesar dos avanços no conhecimento científico, os autores ressaltam que ainda existem poucas pesquisas com felinos silvestres vivendo em liberdade. Grande parte das informações disponíveis foi obtida em animais mantidos em cativeiro, o que reforça a necessidade de ampliar os estudos para compreender melhor como esses agentes circulam na natureza e quais são seus impactos sobre espécies ameaçadas. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Assista ao Terra da Gente deste sábado (1°), na íntegra Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente