'Tive que optar entre o pênis e a vida': câncer genital tem alta incidência entre homens brasileiros e pode ser evitado

  • 25/02/2026
(Foto: Reprodução)
câncer de pênis Freepik Uma pequena mancha na glande foi o primeiro sinal. Não doía, não incomodava. Jorge*, de 63 anos, comerciante, conta que viu a alteração surgir em 2022 e decidiu esperar. Ao longo dos meses, a mancha evoluiu lentamente para uma ferida. Ainda sem dor, mas já com desconforto. Como muitos homens, ele adiou a consulta. Calcula que levou cerca de um ano entre perceber a alteração e procurar um médico. Quando finalmente buscou atendimento, o diagnóstico foi praticamente clínico. A lesão era visível. Uma biópsia confirmou: câncer de pênis. “Fui deixando a consulta para depois, priorizando outras coisas”, diz. Hoje, olhando para trás, afirma que a melhor defesa teria sido o diagnóstico precoce. Jorge passou por uma amputação parcial —perdeu metade do pênis— após a doença avançar. Ele acredita que, se tivesse procurado ajuda ao notar os primeiros sinais, as consequências poderiam ter sido menores. Além de tomar os linfonos inguinais --da região da virilha--, o tumor também se infiltrou na pelve. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Um câncer prevenível, mas negligenciado ℹ️ O câncer de pênis é considerado raro no mundo, com incidência inferior a 1 caso por 100 mil homens em países como Estados Unidos e na maior parte da Europa. No Brasil, porém, a taxa chega a cerca de 6,8 casos por 100 mil habitantes —uma das mais altas registradas globalmente. Para o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, o cenário brasileiro representa um “desconforto epidemiológico”, porque expõe fragilidades estruturais do sistema de saúde e falhas na prevenção de uma doença amplamente evitável. Dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) indicam que, nos últimos cinco anos, quase 2.900 homens passaram por amputação parcial ou total do pênis no país. Na última década, foram mais de 6.500 procedimentos desse tipo. Em média, cerca de 600 homens por ano perdem parte do órgão. Vacina e higiene evitam desenvolvimento da doença Para o urologista Ricardo Vita, doutor em Urologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), cerca de metade dos casos de câncer de pênis está associada à infecção pelo papilomavírus humano (HPV), sobretudo pelos subtipos 16 e 18, considerados de alto risco oncogênico. Ele ressalta, no entanto, que o vírus não é o único fator envolvido. A fimose —condição em que a pele que recobre a glande impede sua exposição adequada— dificulta a higiene íntima e favorece o acúmulo de secreções, como o esmegma, criando um ambiente de inflamação crônica. Esse processo irritativo persistente, ao longo dos anos, pode desencadear alterações celulares e aumentar o risco de transformação maligna. Doutora em Ciências Cirúrgicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e diretora de comunicação da Sociedade Brasileira de Urologia, Karin Anzolch afirma que, além das causas citadas acima, fatores socioeconômicos e culturais pesam. Segundo ela, homens com menor acesso à informação e aos serviços de saúde tendem a chegar aos centros especializados com a doença em estágios mais avançados. Sinais que não devem ser ignorados Diferentemente do câncer do colo do útero —que pode evoluir de forma silencios— o câncer de pênis costuma apresentar lesões visíveis. Stefani explica que é uma doença de evolução lenta. Quando uma ferida não cicatriza, não melhora com tratamento inicial ou persiste por semanas, é sinal de alerta. Segundo os especialistas, os sintomas iniciais mais comuns incluem: ferida ou úlcera que não cicatriza; nódulo ou espessamento da pele; secreção com odor forte; sangramento local. Em geral, o tumor inicial é indolor, o que contribui para o atraso na busca por atendimento. Presidente da Sociedade Brasileira de Urologia e médico responsável pelo tratamento de Jorge, Roni de Carvalho Fernandes explica que qualquer ferida na glande ou no prepúcio que não cicatrize em uma ou duas semanas deve ser avaliada por um urologista. A confirmação diagnóstica é feita por meio de biópsia. Ele reforça que o tumor tem comportamento loco-regional, podendo infiltrar tecidos vizinhos e se espalhar para linfonodos da região inguinal. Quando os gânglios estão comprometidos, o prognóstico piora significativamente. De acordo com Vita, a sobrevida em cinco anos varia de 96% nos estágios iniciais para 20% nos estágios mais avançados, quando há metástases à distância. Freepik A batalha de Jorge Após o diagnóstico, Jorge iniciou quimioterapia neoadjuvante —tratamento realizado antes da cirurgia– para reduzir o tamanho da lesão e tentar preservar o máximo possível do órgão. Ele conta que o tratamento foi desgastante. A cirurgia, realizada em outubro de 2025, também envolveu a retirada dos linfonodos inguinais. A recuperação foi dolorosa. No caso dele, foi possível realizar uma amputação parcial. Segundo Fernandes, a quimioterapia reduziu o tumor e permitiu uma abordagem mais conservadora, com retirada apenas da glande e do prepúcio, preservando os corpos cavernosos —estruturas responsáveis pela ereção. Jorge afirma que consegue urinar normalmente. Ainda assim, relata impacto psicológico importante. Diz que teve que escolher entre manter o pênis ou manter a vida. Em um momento de desabafo, confessou ao médico que pensou em não seguir adiante. Segundo ele, foi confrontado com imagens de casos avançados e percebeu que o atraso poderia ter levado a uma situação muito mais mutilante. Ele reconhece que o medo de encarar o problema contribuiu para a demora. “A gente tem medo de encarar a verdade”, diz. Tratamento e prognóstico A incidência da doença é maior nas regiões Norte e Nordeste, onde o acesso a saneamento, informação e serviços de saúde é mais limitado. Fernandes afirma que o câncer de pênis é mais frequente em populações vulneráveis. Ele ressalta que a circuncisão na infância reduz significativamente o risco, já que elimina o acúmulo de esmegma e a irritação crônica da pele. Nos homens não circuncidados, acrescenta, a higiene adequada —com a retração do prepúcio para limpeza da glande— é fundamental para prevenir processos inflamatórios persistentes. Além da cirurgia, casos avançados podem exigir quimioterapia, radioterapia e, em contextos específicos, imunoterapia. O uso de novas drogas ainda está em investigação, com estudos clínicos em andamento no Brasil e em outros países. Freepik Impacto além da cirurgia Um artigo de revisão publicado em 2025 no periódico científico IJIR: Your Sexual Medicine Journal destaca que o câncer de pênis e seus tratamentos podem provocar efeitos profundos na qualidade de vida, incluindo disfunção sexual, alterações urinárias, ansiedade, depressão e isolamento social. Os autores defendem modelos de cuidado multidisciplinar e suporte psicossocial estruturado para esses pacientes. Jorge afirma que ainda enfrenta desafios emocionais, mas diz que segue fazendo exames de acompanhamento e acredita que, até o momento, o quadro está sob controle. *Nome fictício a pedido do entrevistado.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/02/25/tive-que-optar-entre-o-penis-e-a-vida-cancer-genital-tem-alta-incidencia-entre-homens-brasileiros-e-pode-ser-evitado.ghtml


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