Por motivos religiosos, médico cria clínica de fertilização conservadora que não descarta embriões

  • 17/05/2026
(Foto: Reprodução)
Dr. John Gordon abriu uma clínica de fertilização guiada por princípios cristãos. AP Photo/Jessie Wardarski O Dr. John Gordon, endocrinologista reprodutivo, é um homem de fé há anos. Quando começou a ter dúvidas, elas não eram sobre Deus, mas sobre o trabalho de sua vida. Ele escolheu a especialidade de infertilidade para ajudar as pessoas. Trinta anos depois, os avanços científicos tornaram esse objetivo mais acessível do que nunca, mas também trouxeram novos dilemas éticos. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 Como codiretor de uma clínica de fertilização nos arredores de Washington, D.C., Gordon passou a se preocupar com a criação de embriões excedentes, que muitas vezes ficavam armazenados por longos períodos ou eram descartados. Com a expansão dos testes genéticos, os casais passaram a poder escolher o sexo do bebê e identificar doenças graves, mas também condições mais leves, como a perda auditiva. “Isso é moralmente problemático demais”, pensou Gordon. “Não sei onde traçar o limite.” Empreendedoras faturam com personalização de Bíblias Em 2018, sua esposa o incentivou a mudar a prática médica. Ambos acreditavam, por sua fé cristã, na santidade dos embriões. Ao olhar para a casa onde criaram quatro filhos, Allison Gordon passou a sentir que a vida confortável que levavam parecia ter sido construída sobre “ganhos ilícitos”. John Gordon então comprou uma clínica em Knoxville, Tennessee, e a alinhou às suas convicções religiosas, que vinham se transformando ao longo do tempo. Sua clínica, a Rejoice Fertility, não descarta embriões viáveis, não realiza testes genéticos nem os doa para pesquisa. Também limita a quantidade de embriões produzidos. A trajetória mudou em paralelo ao crescente debate sobre a fertilização in vitro (FIV). Decisões judiciais recentes reacenderam discussões sobre o tema — desde a revogação do direito federal ao aborto pela Suprema Corte dos EUA até a decisão da Suprema Corte do Alabama que passou a considerar embriões como crianças. Ainda assim, a FIV segue amplamente aceita pela opinião pública, e o presidente Donald Trump adotou medidas para ampliar o acesso ao procedimento. A base cristã conservadora de Trump demonstra menor apoio à fertilização in vitro. A Igreja Católica há muito se opõe à prática, e o tema vem gerando debates cada vez mais intensos entre evangélicos. Em 2024, a Convenção Batista do Sul, maior denominação protestante dos Estados Unidos, defendeu restrições à FIV quando há destruição da “vida humana embrionária”. Gordon acredita que sua prática responde a muitas dessas questões morais. Ele tinha 55 anos quando decidiu fazer essa mudança desafiadora: “Não gosto nem de trocar de marca de pasta de dente”. Mas, completou: “Preciso exercer minha profissão de uma forma com a qual eu consiga conviver.” A clínica de Gordon não descarta embriões considerados viáveis AP Photo/Jessie Wardarski O dilema do embrião descartado A clínica Rejoice atrai pacientes de todo o país. Folhetos evangélicos e uma cruz de madeira ficam expostos na sala de espera. Na área de recuperação, um versículo bíblico diz: “Não tenham medo nem se desanimem, pois o Senhor, o seu Deus, estará com vocês por onde vocês andarem”. Em janeiro, Maggie e Cade Lichfield, membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, em Knoxville, seguravam uma imagem de ultrassom — a segunda desde a confirmação da gravidez, após três tentativas frustradas de transferência de embriões. Eles reconhecem as controvérsias envolvendo a fertilização in vitro, mas valorizam o fato de a Rejoice não realizar testes genéticos nem descartar embriões. “Você ainda permite que Deus seja Deus”, disse Maggie Lichfield. “Ele está no controle.” Domenic e Olivia D’Agostino cogitaram desistir da fertilização in vitro por razões religiosas, até conhecerem a Rejoice, localizada a quase duas horas de sua casa, no Tennessee. Eles não sabiam que existia uma clínica que não descartasse embriões. “Esse era o principal problema para mim, porque, na minha visão, não há muita diferença entre descartar um embrião e realizar um aborto”, disse Domenic D’Agostino. “Simplesmente não estávamos dispostos a fazer isso.” Para eles, a descoberta pareceu providencial. Gordon compartilha o interesse do casal pela teologia reformada e pela ideia de que Deus é soberano sobre todas as coisas — inclusive sobre as incertezas dos tratamentos de fertilidade. “O que mais gosto nele é que ele ora conosco antes das transferências”, disse Domenic D’Agostino. “Ele ressalta a soberania de Deus e a importância de nos submetermos à vontade divina nesse processo.” O médico deixou de realizar testes genéticos em embriões AP Photo/Jessie Wardarski Uma experiência de conversão Gordon foi criado em uma família judaica nos arredores de Boston, filho e neto de médicos. Recebeu uma educação de alto nível: escola preparatória, seguida por Princeton, faculdade de medicina em Duke e residência em Stanford. Ele conheceu a esposa em Duke, onde ela fez doutorado em engenharia. Allison Gordon cresceu em uma família cristã, em uma pequena cidade da Carolina do Norte. Um pastor e um rabino celebraram o casamento dos dois, que por anos mantiveram uma união inter-religiosa. A mudança aconteceu quando o filho mais velho, ainda na terceira série, foi hospitalizado com uma doença grave. Foi nesse momento que Gordon teve uma experiência de conversão. “Eu me ajoelhei e disse: ‘Senhor, o Senhor tem a minha atenção’.” Após a recuperação do filho, o casal passou a frequentar uma igreja presbiteriana tradicional, onde Gordon foi batizado em 2000. Hoje, eles integram a Igreja Presbiteriana Evangélica Conservadora da América. Os líderes da igreja, Christ Covenant, apoiam a missão da Rejoice. A clínica não exige que funcionários ou pacientes compartilhem as crenças religiosas de Gordon. Sarah Coe Atkinson, embriologista sênior, afirmou: “Não concordo necessariamente com tudo o que ele acredita, mas acredito no que fazemos ao ajudar esses embriões a se tornarem vidas.” Ela supervisiona o laboratório, que aceita praticamente qualquer embrião, independentemente de sua condição. “Às vezes, os embriões menos promissores dão origem aos bebês mais bonitos”, costuma dizer. Quando um casal recebeu um embrião doado que estava congelado havia quase 31 anos, a Rejoice prestou todo o suporte necessário. A criança, nascida em 2025, estabeleceu o que se acredita ser um recorde de maior tempo entre congelamento de um embrião e nascimento. Para treinar outros profissionais, Atkinson criou uma biblioteca com dispositivos antigos de armazenamento de embriões e instruções para abri-los, organizadas em uma pasta com folhas plásticas protetoras. Em um dos documentos, referente a uma ampola de vidro antiga, há o alerta: “Pode explodir”. A clínica limita a quantidade de embriões criados em cada tratamento. AP Photo/Jessie Wardarski Uma abordagem cristã à fertilização in vitro Especialistas estimam que cerca de 1,5 milhão de embriões congelados estejam armazenados nos Estados Unidos, embora alguns defensores da prática acreditem que o número possa ser ainda maior. Gordon procura não ampliar esse total. Ele adapta os tratamentos ao tamanho ideal da família de cada paciente e se especializa em ciclos de fertilização in vitro com menor uso de medicamentos, o que reduz custos e costuma resultar em menos óvulos. As pacientes também podem optar por fertilizar menos óvulos. Outras clínicas oferecem essas alternativas, mas a Rejoice se destaca por priorizá-las. A desvantagem é que, caso os embriões disponíveis sejam utilizados e haja necessidade de um novo ciclo, o custo pode variar entre US$ 8.000 e US$ 10.000 na Rejoice. Ainda assim, segundo Gordon, muitas pacientes preferem produzir menos embriões por motivos de consciência. Emily Martin afirma que se sente angustiada pelos embriões que mantém armazenados. “Eu acordava no meio da noite pensando: ‘Meu Deus, o que fizemos?’, e sentia um peso enorme”, disse. Cristã contrária ao aborto em Knoxville, ela lamenta não ter conhecido a Rejoice antes de produzir mais embriões do que usaria em outra clínica. “Esse é um aspecto pouco discutido”, afirmou. Em casos raros em que restam embriões não utilizados, Gordon sugere que sejam disponibilizados para adoção. Em círculos cristãos conservadores, essa prática é conhecida como “adoção de embriões”, por considerar os embriões não como propriedade, mas como filhos. Recentemente, a clínica lançou o programa Rejoice Embryo Rescue, que Gordon descreve como um “orfanato”. O projeto armazena embriões doados e trabalha com agências — em sua maioria cristãs — especializadas em coordenar adoções. Adrienne e Colby McKnight haviam considerado a adoção tradicional antes de conhecerem a adoção de embriões em sua comunidade de ensino domiciliar, em Augusta, Geórgia. Eles adotaram um embrião, chamado Gloria, que estava congelado havia 11 anos. Quando a transferência não resultou em gravidez, ficaram tristes, mas gratos pela oportunidade. “Para nós, trata-se de dar a ela uma chance de viver e de sair do congelamento”, disse Adrienne McKnight. “De qualquer forma, ela poderá seguir em frente. Estará com o Senhor.” Por meio da Rejoice, o casal adotou recentemente mais dois embriões. Pacientes da clínica participam de orações antes da transferência de embriões. AP Photo/Jessie Wardarski Unindo os mundos da fertilização in vitro e da religião “É difícil conciliar fé e profissão”, disse Gordon. Citando um trecho bíblico, afirmou que os cristãos são chamados a demonstrar “fé por meio das obras”. A Rejoice permitiu que ele integrasse essas duas dimensões, embora o caminho tenha sido desafiador. O relacionamento com o médico de quem comprou a clínica se deteriorou, levando a disputas judiciais. Gordon também enfrentou críticas de outros cristãos e ativistas contrários ao aborto que consideram qualquer forma de fertilização in vitro antiética. “Ele está na direção certa”, disse Matthew Lee Anderson, especialista em ética cristã da Universidade Baylor, que se opõe à FIV. “É notável que tenha tomado medidas para mudar sua prática, e espero que avance ainda mais.” Apesar das dificuldades, Gordon não se arrepende da mudança e planeja expandir a equipe médica. Em um domingo, após o culto, ele voltou à clínica. No laboratório, Atkinson preparava o embrião congelado de um casal da Carolina do Norte para a transferência, prevista para aquela tarde. À medida que o embrião descongelava, se expandia em uma placa de cultura: as células se reidratavam e ganhavam vitalidade. Ali havia uma possibilidade de vida, que seria enviada com esperança — e, na Rejoice, também com uma oração. Quatro semanas depois, veio a notícia: a paciente estava grávida.

FONTE: https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2026/05/17/por-motivos-religiosos-medico-cria-clinica-de-fertilizacao-conservadora-que-nao-descarta-embrioes.ghtml


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