Mães e chefes dos próprios filhos: empreendedoras relatam desafios para unir autoridade e afeto no trabalho

  • 10/05/2026
(Foto: Reprodução)
Empreendedoras relatam desafios para unir autoridade e afeto no trabalho Empreendedora e chefe do próprio filho. Josiane Machado é sócia de um restaurante de frutos do mar com três unidades no litoral de Santa Catarina e convive, diariamente, com o desafio de equilibrar autoridade e afeto dentro e fora do trabalho. A chefe de cozinha comanda restaurantes em Governador Celso Ramos, Florianópolis e Itapema, mas, assim como outras duas mães empreendedoras ouvidas pelo g1, também lida com as peculiaridades dessa dinâmica pouco convencional de trabalho. "Tem hora que ele é meu sócio, tem hora que ele é meu funcionário, tem hora que ele é meu filho", comentou. ✅Clique e siga o canal do g1 SC no WhatsApp Para a psicóloga Rosa Maria Maia Lavio de Oliveira, estabelecer limites claros é essencial para que essa relação familiar de chefe e funcionário funcione. Os filhos, de acordo com ela, devem reconhecer e respeitar a mãe como empreendedora e líder dentro do ambiente de trabalho. "Se a mãe fala: 'você vai entrar tal hora e sair tal hora', você tem o horário 'x' de almoço e você tem tal horário para voltar. Assim, a coisa funciona muito bem e a empresa cresce", explica. Quando os filhos não entendem o papel deles dentro da empresa e passam a acreditar que podem “mandar” na equipe ou interferir nas decisões apenas pelo vínculo familiar, desgastes no ambiente de trabalho podem surgir. Entre eles, segundo a especialista, estão a sensação de privilégio por parte dos funcionários, conflitos internos na equipe e até impactos na relação entre pais e filhos fora do expediente. 👩‍🍳🦐 Em família, o negócio cresce — mas os desafios também O restaurante de Josiane Machado tem mais de 30 anos de história e já atravessou diferentes fases. Já o filho Guilherme Machado Sagas, de 25 anos, nasceu quando o estabelecimento dos pais já tinha uma década de existência. Josiane Machado e o filho trabalham juntos em um restaurante Reprodução/NSC TV Apesar de ter crescido em meio aos aromas de frutos do mar, foi só durante a pandemia que percebeu que queria realmente fazer parte do negócio da família. Trancou o curso de direito e chegou cheio de ideias novas para um restaurante com três décadas de trajetória — os conflitos com a mãe foram inevitáveis. "Mesmo a gente 'se matando', a gente se ama ao mesmo tempo, porque a gente tem o mesmo propósito. Tem hora que ele é o mais maduro, ele é o mais consciente da história. Tem hora que sou eu. E aí vai se moldando. É como uma casa de família normal", disse Josiane. Responsável pelo marketing do restaurante, Guilherme entendeu mais tarde que seu papel não era mudar a essência construída pela família, mas contribuir para fortalecer a marca e modernizar processos. Assim, a relação no trabalho também melhorou. "Eu vejo ela como figura de mãe num momento e como sócia em outro. Mas sempre tendo o respeito de mãe. É um desafio, é difícil a gente ter ideias às vezes tão distintas, brigando pela mesma coisa. Mas, no final das contas, no final do dia , a gente se liga ou a gente se vê, se abraça, se beija e pede desculpa", comentou. Leia também: Preconceito limita atuação de mulheres na construção civil: 'Precisa ser 110%', diz engenheira Conheça histórias de mulheres que trabalham no agronegócio em SC Pesquisa revela que 48,7% das famílias são chefiadas por mulheres 🌸🌺 Florescendo a relação de mãe e filho Um estudo do Observatório de Negócios em parceria com o Sebrae Delas mostrou que, em 2022, 50,5% das empreendedoras brasileiras eram mães. Segundo a entidade, a flexibilidade de tempo, a busca por autonomia e a dificuldade de conciliar carreira e maternidade estão entre os principais motivos para isso. A floricultura de Scheila Hames foi aberta antes mesmo dos filhos, Kaique e Henrique Hames, de 21 e 19 anos, nascerem. Mas hoje a loja ajuda a estar próxima deles. Além da flexibilidade inerente à função, hoje os jovens trabalham lá e se dividem entre entregas, atendimentos e contatos com fornecedores. A floricultura de Scheila Hames foi aberta antes mesmo dos filhos, Kaique e Henrique Hames, de 21 e 19 anos, nascerem. Reprodução/NSC TV O convívio quase integral com a mãe não é um desafio para eles... pelo contrário. "A gente passa muito tempo junto. Eu gosto passar tempo com a família, então basicamente a gente passa 24 horas por dia junto", disse Henrique. "Às vezes é uma opinião diferente um do outro sobre alguma venda, algo assim, e acaba dando conflito. Mas a gente consegue resolver tranquilo também", afirmou. Quando ser mãe e quando ser chefe? Scheila também disse que precisou se adaptar e entender o momento de "ser mãe" e "ser chefe", mas admite que a intimidade com os filhos é um diferencial que facilita as trocas de conhecimento e ajudam a fazer o negócio crescer. "Quando a gente está com pessoa 'estranha', às vezes a gente limita o que falar, o que tem que resolver. Com a família, não: a gente resolve, a gente dá propostas e eles falam como eles acham que é o certo. Enquanto se fosse um colaborador, às vezes ele fica quieto, ele não responde", comentou. A psicóloga Rosa Maria explica que isso ocorre, muitas vezes, por uma questão de confiança. "Se eu confio no meu filho, meu filho confia em mim, enquanto mãe e enquanto empreendedora, a relação fica muito mais forte. "Eles podem estar discutindo de uma forma tão aberta que às vezes não é possível de falar com um colaborador que você não tem tanta liberdade. Mas esse vínculo familiar vem desde criança. Existe a confiança. 'Eu admiro a minha mãe, eu faço parte desse projeto e junto nós vamos crescer'. O negócio cresce e cresce muito", afirma. 🖊️📒 Descobrindo o melhor do outro Foi vendo a mãe, Eva Fátima de Souza, comandar a papelaria que abriu no início do ano em Florianópolis que Lucas Souza descobriu um verdadeiro dom dela. "Parece que aqui, atendendo principalmente o público infantil, ela se encontrou. A gente já viu ela fazer muitas coisas, sempre muito bem, com muito cuidado. Mas ela gosta muito de criança, desde sempre. Então, aqui ela se encontra com elas, conversa, brinca. É um atendimento diferenciado, é de conhecer pelo nome, de as crianças quererem vir falar com ela, ver o que tem de novidade", relatou. A paixão pelo atendimento ao público foi um combustível para que Eva Fátima de Souza abrisse a primeira empresa aos 61 anos. O sonho foi realizado ao lado do filho, o designer Lucas Souza, que conversa com fornecedores, faz artes para as redes sociais e fica no atendimento quando a mãe não pode estar. Diferente do que se espera, Eva diz que não há discussões e que trabalhar com o filho é totalmente positivo. "Nossa relação sempre foi forte, desde pequenininho. Eu lembro sempre até do exemplo do pediatra dele, que dizia que a gente tinha muita cumplicidade. E a gente tem essa cumplicidade até hoje. Então, em todas as etapas da minha vida, como da vida dele, é um fazendo parte da vida do outro em todos os momentos", disse. Eva Fátima de Souza e o filho, Lucas Souza, trabalham juntos em papelaria de Florianópolis Sofia Mayer/ g1 VÍDEOS: mais assistidos do g1 SC nos últimos 7 dias

FONTE: https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2026/05/10/maes-chefes-filhos-empreendedoras-relatam-desafios-unir-autoridade-afeto-trabalho.ghtml


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