Há mais de 40 anos com IPTU de área urbana, bairros de Salto vivem sem asfalto e esgoto: 'Difícil chegar até mesmo ao hospital'
17/02/2026
(Foto: Reprodução) Moradores de bairro em Salto relatam dificuldade de locomoção e obras atrasadas
Há mais de 40 anos, moradores de um conjunto de bairros em Salto (SP) pagam Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) como área urbana, mas vivem sem infraestrutura básica, como asfalto e rede de esgoto. A falta de serviços essenciais causa transtornos diários, como ruas de terra que se tornam intransitáveis em dias de chuva, e dificulta o acesso de ônibus e até de ambulâncias.
Os bairros afetados são Arquidiocesano, Maracajás e Iracema. Moradores relataram ao g1 os transtornos causados pela ausência de serviços. Elaine Cristina, que vive no local, conta que a falta de pavimentação dificulta a circulação de ônibus e de ambulâncias em casos de emergência.
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"As ruas são de terra e pedras e fica muito difícil transitar por elas. As vias danificam os veículos e os ônibus não chegam até os locais na maioria das vezes. A situação é tão feia que a van da empresa que minha filha trabalha se negou a buscá-la todos os dias", diz.
"É difícil até mesmo chegar ao hospital. As ambulâncias não entram aqui. Temos um grupo no WhatsApp para emergências, no qual vizinhos ajudam vizinhos", acrescenta Jailson Alves, de 66 anos, reconhecido como líder comunitário.
Promessa de obras e projeto pausado
Moradores de bairro em Salto relatam dificuldade de locomoção e obras atrasadas
Entre 2022 e 2023, a prefeitura chegou a anunciar em seu site um projeto de mais de R$ 2 milhões para levar infraestrutura aos bairros. A primeira apresentou o projeto e a segunda confirmou a execução. No entanto, segundo os moradores, nada avançou.
"O projeto foi elaborado pela engenharia, que prevê toda a infraestrutura necessária, como instalação de esgoto e água tratada. No entanto, o projeto foi pausado. Por isso, pedimos socorro e ajuda", diz Jailson.
Um morador, que preferiu não se identificar, afirma que, nos poucos trechos onde a pavimentação foi feita, a má qualidade e a falta de manutenção já causam problemas.
"O serviço está sendo destruído pela chuva e, em breve, estaremos com a rua de terra. Além do serviço mal feito, não há manutenção. Muitos blocos intertravados estão soltos na rua, colocando em risco o trânsito de veículos, motos e pedestres", relata.
Jailson conta que a luta por melhorias é antiga. "Desde a criação de uma associação, em 1999, já conversávamos sobre as estruturas necessárias. Isso foi se prolongando, passando gestões e gestões, e não houve melhorias. Nunca se fez nada", lamenta.
Moradores de Salto (SP) enfrentam ruas não pavimentadas em conjunto de bairros
Arquivo pessoal
Segundo o líder comunitário, a situação se agravou com o crescimento da população, que triplicou desde a pandemia. Hoje, cerca de 500 famílias vivem na área.
"Apesar de ser considerada uma área urbana desde 1981, a região ainda é tratada como área rural. Não estamos conseguindo transitar pelos bairros por causa das chuvas. Quem não tem caminhonete não consegue circular. Os ônibus não passam e o transporte escolar não está circulando", diz.
O município integra o Consórcio das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) e a Agência das Bacias PCJ, responsáveis pela gestão regional dos recursos hídricos. Em Salto, porém, o saneamento básico e os serviços de água e esgoto são executados pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae).
A falta de rede de esgoto obriga os moradores a construírem fossas por conta própria. "No meu ponto de vista, isso é muito grave. Além disso, é um grande problema para o meio ambiente, porque poucos moradores fazem fossa séptica. A maioria constrói fossas que acabam contaminando o solo", explica outro morador.
Jailson lembra que, em 2016, procurou o Ministério Público. Na época, o Saae alegou que o projeto era inviável financeiramente e que um estudo seria feito em até dez anos.
'Política da invisibilidade' e segregação
Para Vidal Mota, doutor em políticas públicas pela Unicamp, a situação reflete a segregação socioespacial, quando populações mais pobres são concentradas em áreas com menos infraestrutura e atenção do poder público.
"Em políticas públicas, observamos que as prefeituras costumam adotar uma lógica de 'centro-periferia'. Investimentos em áreas centrais são vistos como 'vitrine', enquanto as periferias entram em uma fila de espera eterna", reforça o especialista.
Vidal Mota, de Sorocaba (SP), doutor em políticas públicas pela Unicamp
Arquivo pessoal
Segundo ele, essa falha na governança é conhecida como "política da invisibilidade". "É a prática de ignorar a existência, as necessidades e os direitos de uma parcela da população para manter uma estética urbana de 'primeiro mundo' ou para evitar o enfrentamento de problemas estruturais", finaliza.
O especialista explica que a falta de saneamento e de pavimentação vai muito além de um problema estético: ela se torna um verdadeiro bloqueador de direitos, afetando a saúde, a mobilidade e a qualidade de vida da população.
"Quando o ônibus não passa e o saneamento inexiste, o Estado está dizendo àqueles cidadãos que eles pertencem a uma categoria inferior de prioridade orçamentária", pontua.
Moradores reclamam sobre falta de obra e manutenção nos bairros Arquidiocesano, Maracajás e Iracema, em Salto (SP)
Reprodução/Google Maps
O que dizem os órgãos públicos
O g1 procurou a Prefeitura de Salto, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem. Em nota, o Saae informou que a expansão do sistema de saneamento para a região está incluída no Plano Municipal de Saneamento deste ano e que planeja a instalação a longo prazo.
Moradores de Salto (SP) sofrem com falta de infraestrutura em conjunto de bairros
Arquivo pessoal
Falta de manutenção e infraestrutura deixa moradores de Salto (SP) com dificuldade de locomoção
Arquivo pessoal
*Colaborou sob supervisão de Gabriela Almeida
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