Do barracão à avenida: como nascem os sambas-enredo que marcam gerações no carnaval de São Paulo

  • 11/02/2026
(Foto: Reprodução)
Do barracão à avenida: saiba como nasce um samba-enredo “Me dê a mão, me abraça. Viaja comigo pro céu. Sou gavião, levanto a taça. Com muito orgulho, pra delírio da Fiel.” É difícil ler esses versos sem cantar junto. O samba-enredo “Coisa Boa é Pra Sempre” deu à Gaviões da Fiel o primeiro título no Grupo Especial, em 1995, e atravessou gerações. Trinta anos depois, a música ainda ecoa até entre quem não acompanha o carnaval ou não é corintiano. Mas o que faz um samba-enredo se tornar inesquecível? Existe receita para criar um sucesso? Antes de ser cantado por milhares de pessoas no Sambódromo do Anhembi, um samba-enredo passa por um processo longo, técnico e competitivo. A música que guia o desfile de uma escola de samba nasce a partir do enredo, passa por disputas internas e só chega à avenida depois de meses de trabalho. Em São Paulo, esse processo envolve tradição, técnica musical, leitura de enredo e investimento financeiro. Para explicar como o samba-enredo é criado, o g1 ouviu dois compositores com trajetórias centrais no carnaval paulistano: Zeca do Cavaco, da escola de samba Vai-Vai, e Janos Tsukalas, o Grego, da Gaviões da Fiel. Dois compositores com trajetórias centrais no carnaval paulistano: Zeca do Cavaco, da escola de samba Vai-Vai (à esquerda), e Janos Tsukalas, o Grego, da Gaviões da Fiel. Rafael Moura Peixoto/g1 Aos 55 anos, Zeca é um dos principais compositores da história do Vai-Vai, a escola com mais campeonatos de São Paulo, com 15 taças do Grupo Especial. Ele também participou do samba-enredo “Simplesmente Elis”, campeão em 2015 — o último título da escola. Ainda é o responsável pelas letras que embalaram outras seis vitórias da agremiação. Enquanto o Grego — que nasceu na Grécia, veio morar no Brasil com 1 ano de idade e desembarcou direto no carnaval do Rio de Janeiro em 1948 — é autor do icônico samba que trouxe a primeira vitória da Gaviões no Grupo Especial. Aos 78 anos, ele é autor de 15 sambas-enredo, somando 4 letras campeãs (três da agremiação corintiana e uma da Camisa Verde e Branco). Já brinquei com os caras, porque [ficam] muito preocupados com alegoria, com fantasia. Falei: 'Olha, gente, eu quero fazer uma pequena advertência para vocês. Não chama escola de alegoria, não chama escola de fantasia. Chama escola de samba. Então, o vértice da pirâmide é o samba. No carnaval, o samba-enredo é a música oficial do desfile e a alma das escolas. Ele conta, em forma de letra e melodia, a história escolhida pela escola para aquele ano — o enredo — e serve como fio condutor de tudo o que entra na avenida. "Não estou advogando em causa própria, mas o samba é o mais importante. O que identifica uma escola? O samba", resume Zeca. Desfile da Gaviões da Fiel no carnaval de 2025 em São Paulo Reprodução/Facebook/Gaviões da Fiel/Sérgio Cruz Fotografia O enredo O primeiro passo para a criação de um samba-enredo é a definição do enredo, o tema que a escola vai contar no desfile. A sinopse é elaborada pelo carnavalesco e funciona como um roteiro que orienta todo o desenvolvimento do samba. É a partir desse material que os compositores começam a trabalhar. Segundo eles, a letra precisa traduzir a história escolhida, respeitar a ordem narrativa do desfile e dialogar com as alegorias e fantasias que vão para a avenida. “O enredo vem antes da música”, explica Zeca do Cavaco, que nasceu em uma família de músicos e sambistas e que também é formado em Música pela Faculdade de Música Carlos Gomes e em Produção Musical na Faculdade e Conservatório Souza Lima. Segundo ele, o compositor precisa entender o que a escola quer contar para transformar a história em verso e melodia. “Eu fico pensando no que o componente, ou seja, quem faz parte da escola, gostaria de cantar”, diz. Zeca do Cavaco e Grego cantam sambas-enredo juntos João de Mari/g1 Apesar de não existir uma fórmula única para compor um samba-enredo, alguns princípios são comuns. A letra precisa ser clara, fácil de memorizar e permitir que milhares de pessoas cantem juntas durante o desfile. A melodia também é decisiva. Ela precisa ter força para sustentar o canto da escola do início ao fim, respeitando o andamento da bateria e o tempo do desfile. Grego explica que, no processo dele, letra e melodia nascem ao mesmo tempo. “Eu faço a letra e, simultaneamente, faço a melodia. Eu só passo para a linha seguinte depois que a anterior estiver aprovada”, afirma Grego, que se apaixonou pelo carnaval e pelo samba ainda na infância, num subúrbio do Rio de Janeiro. O compostor Grego foi homenageado pela Gaviões da Fiel em janeiro deste ano Rafael Peixoto/g1 Parcerias e disputas internas Depois de prontos, os sambas são inscritos nas disputas internas das escolas. Em algumas agremiações, dezenas de composições participam da competição, que passa por eliminatórias até a escolha do samba vencedor. Para avançar nas etapas, o samba precisa reunir alguns critérios fundamentais: fidelidade ao enredo força melódica letra clara e emocional facilidade de canto impacto na arquibancada Só o samba vencedor da disputa será cantado no desfile oficial. Além do aspecto artístico, o processo envolve custos: gravação, intérpretes, músicos e materiais de divulgação fazem parte da disputa interna. Para você colocar um samba numa escola de samba, é muito gasto. Você vai gastar na gravação, no time de canto, nas camisetas iguais para o time de palco. Segundo ele, isso mudou a dinâmica das parcerias e impacta, inclusive, o número de pessoas que assina uma composição. “Hoje, dois fazem o samba e oito vão na aba. São parceiros porque financiam.” Intitulado "Plantar Para Colher e Alimentar – Tem Muita Terra Sem Gente, Tem Muita Gente Sem Terra", o samba-enredo da Acadêmicos do Tatuapé deste ano, por exemplo, é assinado por 15 pessoas. Ensaio técnico da escola de samba Vai- Vai arrasta foliões na Avenida Rui Barbosa, no bairro do Bixiga, no Centro de SP RAUL LUCIANO/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO Do barracão à avenida Depois de escolhido, o samba-enredo ganha gravação oficial e passa a ser ensaiado pela escola. A música deixa o barracão e começa a circular nos ensaios de rua e no Sambódromo, onde será cantada por toda a comunidade no dia do desfile. Para Zeca, apesar das transformações no carnaval ao longo dos anos, a essência do samba-enredo continua sendo emocional. “Eu escrevo com o coração. Eu venho da arquibancada”, afirma. “Se você não tiver amor naquilo que você faz, vai ser uma coisa mecânica.” Grego concorda e complementa que a criação é feita de tentativas. Nem toda ideia se encaixa de imediato, e ajustes são comuns até que letra e melodia encontrem o ponto certo. Grego define o processo como "insistência": errar, refazer e testar até que o samba “feche”. É essa combinação de emoção e persistência que, segundo os compositores, constrói o legado de um samba-enredo. Quando uma música atravessa gerações, ela deixa de pertencer apenas aos autores e passa a integrar a memória da escola e do carnaval da cidade. “Você pode não saber quem escreveu, quem era o presidente ou o carnavalesco”, diz Zeca. “Mas o samba, esse você nunca esquece.” Zeca do Cavaco escreveu sete sambas-enredo vencedores do Vai-vai. João de Mari/g1

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/carnaval/2026/noticia/2026/02/11/do-barracao-a-avenida-como-nascem-os-sambas-enredo-que-marcam-geracoes-no-carnaval-de-sao-paulo.ghtml


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