Ceilândia de Madalenas: conheça a professora que ajudou a alfabetizar mais de 16 mil pessoas no DF

  • 27/03/2026
(Foto: Reprodução)
Conheça Madalena Torres, que ajudou a alfabetizar mais de 16 mil pessoas em Ceilândia A trajetória da professora Madalena Torres, de 62 anos, se entrelaça com a história de Ceilândia – região administrativa do Distrito Federal que completa 55 anos nesta sexta-feira (27). Em conversa com o g1, a educadora relembrou a trajetória, falou sobre a relação com a região administrativa e compartilhou o trecho de um livro de Paulo Freire que conta parte da sua história (leia abaixo). Nascida em 27 de abril de 1963, Madalena é referência na educação popular da cidade – alfabetizou cerca de 16 mil pessoas junto ao movimento popular e dedicado décadas à formação de jovens, adultos e outros educadores. Professora Maria Madalena Torres g1/Ingrid Dias Nascida em Divinópolis de Goiás (GO), a cerca de 460 km do Distrito Federal, Madalena chegou em Ceilândia com pouco menos de 8 anos – quando a região recém-fundada tinha apenas oito meses de existência. "O talco era poeira e quando chovia, o creme era lama" , lembrou a professora Madalena e os irmãos na Ceilândia em 1971, a professora é a última à direita. g1/Reprodução Madalena estudou a vida toda em escolas públicas, e cursou o ensino médio no Centro de Ensino Médio 04 de Ceilândia (CEM 04), mais conhecido como "Centrão". Ao se formar, decidiu que seria professora. Graduada em filosofia e mestre em tecnologia da educação, Madalena atuou como professora efetiva no Centro de Ensino Especial de Brazlândia (Cenebraz) por três anos. Em 2001, voltou para a Escola Classe 19, em Ceilândia, de onde nunca mais saiu. A história da educadora é marcada pela superação: enfrentou um câncer de mama em 2008, passou por tratamento intenso e, mesmo diante das sequelas, não deixou de atuar na educação. Em 2010, aposentada por invalidez, passou a trabalhar como educadora popular no Centro de Educação Paulo Freire de Ceilândia (Cepafre). ➡️ O Cepafre, fundado oficialmente em 1989, já alfabetizou mais de 16 mil pessoas e formou grupos de educadores populares em várias cidades do DF e entorno, sendo um dos pilares da transformação social em Ceilândia. Em 2025, a trajetória foi interrompida mais uma vez por uma retinopatia diabética que fez Madalena perder a visão temporariamente. Tão logo se recuperou, ela voltou à educação – desta vez, formando novos alfabetizadores no Cepafre. Madalena e os livros que escreveu Ingrid Dias/DF Cinema como ferramenta O ato de educar, para Madelena, não se restringe à sala de aula. A professora usa o cinema como ferramenta de alfabetização e de formação profissional – uma estratégia baseada nos princípios do educador brasileiro Paulo Freire. "Nós realizamos um projeto 'Cinema como Linguagem' na alfabetização de jovens e adultos, onde se alfabetiza, se ensina a fotografar e a filmar. Eles lidam com a inclusão digital, trabalhando com o celular", explica Madalena. Paulo Freire: veja 6 ensinamentos do educador que ainda são atuais Galerias Relacionadas Citada pelo próprio Paulo Freire em “Pedagogia da Autonomia”, Madalena representa a força das mulheres negras na educação e a luta contra o preconceito. No livro, Freire conta um episódio que revela um caso de racismo que Madalena sofreu ainda no começo de sua carreira. Leia o trecho: "Me torno tão falso quanto quem pretende estimular o clima democrático na escola por meios ecaminhos autoritários. Tão fingido quanto quem diz combater o racismo mas, perguntado se conhece Madalena, diz: 'Conheço-a. É negra mas é competente e decente.' Jamais ouvi ninguém dizer que conhece Célia, que ela é loura, de olhos azuis, mas é competente e decente. No discurso perfilador de Madalena, negra, cabe a conjunção adversativa mas; no que contorna Célia, loura de olhos azuis, a conjunção adversativa é um não-senso. A compreensão do papel das conjunções que, ligando sentenças entre si, impregnam a relação que estabelecem de certo sentido, o de causalidade, falo porque recuso o silêncio, o de adversidade, tentaram dominá-la mas não conseguiram, o de finalidade, Pedro lutou para que ficasse clara a sua posição, o de integração, Pedro sabia que ela voltaria, não é suficiente para explicar o uso da adversativa mas na relação entre a sentença 'Madalena é negra' e 'Madalena é competente e decente'. A conjunção 'mas', aí, implica um juízo falso, ideológico: sendo negra, espera-se que Madalena nem seja competente nem decente. Ao reconhecer-se, porém, sua decência e sua competência a conjunção mas se tornou indispensável. No caso de Célia, é um disparate que, sendo loura de olhos azuis não seja competente e decente. Daí o não-senso da adversativa. A razão é ideológica e não gramatical." A vida e a atuação de Madalena Torres são parte fundamental da memória e da identidade de Ceilândia, cidade que, assim como ela, é símbolo de resistência, transformação e esperança. Leia mais notícias sobre a região no g1 DF.

FONTE: https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2026/03/27/ceilandia-de-madalenas-conheca-a-professora-que-ajudou-a-alfabetizar-mais-de-16-mil-pessoas-no-df.ghtml


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